Anotações de um não poliglota — 2 agosto 2013

Os gêneros em húngaro

2 agosto 2013 (22:33:26)

Não existem gêneros em húngaro. Você já sabe tudo, obrigado por ler, tchau!


 

Ainda aqui? Bem, então, deixe-me mostrar alguns detalhes. Vamos comparar o húngaro com outros dois idiomas que possuem gêneros de diferentes formas: inglês e francês.

Em francês, cada substantivo possui um gênero, masculino ou feminino. Por exemplo, casa, alma e rua são femininos (une maison, une âme, une rue), mas dia, cordeiro e ouro são masculinos (un jour, un agneau, un or). Isto requer que todos os artigos estejam concordando com o gênero do substantivo (un – une, le – la) e os atributos mudam as suas terminações ou a forma de concordar (vieux jour – vieille maison). O francês possui um rico vocabulário de pronomes que refletem o gênero dos objetos (il – elle, mon – ma, cet – cette, du – de la) e já que os substantivos comuns são ordenados para serem precedidos por um determinador, você precisa manter o gênero das coisas em sua mente o tempo todo.

Em inglês, a situação era muito similar (apesar de terem três gêneros, masculino, feminino e neutro) até o décimo terceiro século quando a extinção de gêneros ocorreu no idioma. Somente os pronomes pessoais e possessivos na terceira pessoa do singular (he – she, his – her, him – her) foram mantidos. Alguns substantivos possuem variantes masculinas e femininas, todos referindo-se à coisas vivas: animais como o touro e a vaca (bull – cow), galo e galinha (cock – hen), cavalo e égua (stallion – mare) e profissões como aeromoça ou carteiro (stewardess or mailman). Algumas profissões possuem palavras para ambos os gêneros, como ator e atriz (actor – actress) e garçom e garçonete (waiter – waitress).


 

O húngaro não possui gêneros. Isto significa existe apenas um pronome, ő, significando ambos ele e ela. O possessivo é övé, significando ambos dele e dela, mas os pronomes possessivos são na maioria dos casos substituídos por sufixos e só existe um para ambos os gêneros: kutyája significando tanto "cachorro dele" e "cachorro dela".

Desta maneira, o húngaro evita os problemas de gênero do inglês. Em inglês, quando você está se referindo à uma pessoa desconhecida ou um membro de um grupo, você deve escolher formas como “he or she”, “s/he”, “they” (referindo-se à uma única pessoa), “that person” e outros métodos complicados. O húngaro simplesmente diz: ő.

A pergunta que surge é como distinguir quem é de qual gênero. Na maioria dos casos, nós não precisamos. Por exemplo: “How is Leslie?” “I don’t know, I didn’t see him for a long time.” Você realmente precisa de gênero neste diálogo? Obviamente que não, entretanto, Leslie pode ser um homem ou uma mulher, mas ambas partes conhecem Leslie pessoalmente e sabem que ele é, efetivamente, um homem. Agora vamos reformulá-la. “How is Leslie?” “I don’t know, we didn’t meet for a long time.” Olhe, neste caso, mesmo o inglês não precisa especificar explicitamente o gênero de Leslie.

O húngaro funciona similarmente. Se alguém não sabe o gênero de Leslie, nós podemos dizer him ou her de diversas maneiras: há palavras como férfi (homem), nő (mulher), fiú (menino), lány (menina), mas se todos sabem o gênero ou este não é importante, nós não exigimos a menção de sua masculinidade repetidamente. E há uma palavra adicional, ember, que significa o mesmo que homo do latim e do esperanto: ser humano, não importanto qual é o gênero ou qual é a idade, adulto ou criança, qualquer pessoa.

A situação é um pouco mais difícil quando se está traduzindo um texto de um idioma onde um único pronome é o suficiente para distinguir entre duas pessoas, como o inglês.

She looked at him, her eyes wandering along his body. “Tie me”, she said in a soft voice, “tie me strongly and do anything you want.” He nodded, took a strong rope and tied her to the bed, and he did what he wanted: he went off to the pub.

Bem, é impossível traduzir isto para húngaro usando somente pronomes para identificar os personagens. Assim como em inglês quando todos são do mesmo gênero.

She told her to come in, so she went in to her office and sat down. She wanted to discuss her daughter’s wedding with her. She said she would like a big wedding with at least two hundred guests but she prefers a small one, with only the members of the family. But they asked her sister, too, and she said she doesn’t know what does she want really, she must discuss it with her.

Você entende uma única palavra disto? Eu também não. Ela foi no escritório de alguém ou para o dela? Quem queria discutir o casamento, a filha de quem que era, e com quem ela queria falar, com a outra mulher ou com a filha mesmo? A irmã de quem é a irmã? Da noiva, da mãe ou da terceira mulher? Quem não sabe o que ela (ela mesma ou outra alguém?) realmente quer?

Então, chamar pessoas somente pelos pronomes pessoais só funciona em histórias de amor, onde somente um homem e uma mulher estão presentes. Um garçom ligando para um quarto de hotel, uma visita de um parente ou até mesmo um cachorrinho arruinariam a história inteira, deixando o leitor em dúvida de quem beijou quem.


 

Existe um grande problema em inglês sobre as profissões: devemos continuar dizendo chairman, quando nos referimos ao Mr. Doe ou é melhor dizer chairperson? E palavras como mankind? Devemos utilizar personkind ao invés, não é?

Os húngaros possuem um problema similar, só que funciona um pouco diferente. Mankind, por exemplo, é emberiség em húngaro, criada similarmente a palavra para humanidade. Portanto esta palavra não é um problema. Mas há um número suficiente delas.


 

Vamos começar com Mr., Mrs. e Miss. Em inglês, o problema aflora com os dois títulos femeninos, referindo-se ao estado estado civil das damas, enquanto o estado civil dos cavalheiros é irrelevante. Este problema conduziu à reinvenção da velha forma esquecida, Ms.

Em húngaro, Mrs. e Miss em si são o suficiente para gerar problemas. Simplesmente não há uma forma correta para charar damas polidamente.

Este não é um problema velho. Por séculos, nós tinhamos formas como:

Kovács úr – Mr. Kovács;

Kovácsné – Mrs. Kovács;

Kovács kisasszony – Miss Kovács.

Mas estas eram utilizadas somente por pessoas de classe baixa. Para pessoas da classe alta, você tinha que adicionar um título honorífico dependendo de sua classificação. Existiam vários deles e você tinha que saber a classificação da pessoa com quem você estava falando e o título apropriado para aquela classificação.

A partir de 1949, o regime comunista introduziu a forma geral de abordagem: elvtárs para os homens e elvtársnő para as mulheres. Isto significa literalmente “par de princípios (mulher)”. Este se tornou rapidamente o termo oficial, utilizado somente por e entre membros proeminentes do partido comunista. A forma Kovács úr foi logo restabelecida não oficialmente e depois da queda do regime comunista em 1989, ela se tornou o único termo polido para um homem adulto. Os títulos honoríficos não foram restabelicidos.

Para as damas, isto aconteceu diferentemente. Por séculos, as mulheres eram obrigadas a utilizar o sobrenome do marido com o casamento, acrescentando um sufixo -né: se Kovács Péter e Szabó Mária cassassem, ele se tornaria Kovács Péterné, ou abreviando, Kovácsné, como mostrado acima. (Lembrando que os húngaros utilizam o sobrenome na frente do nome.) Isto foi exatamente o mesmo com Mrs. Peter Smith ou Mrs. Smith em inglês, mas há uma diferença: em inglês, ela seria permitida de se tornar Mrs. Mary Smith também. Em húngaro, isto era oficialmente proibido. Perto de 1960, algumas atrizes famosas começaram a manter os seus nomes de donzelas, porque elas se tornaram famosas com estes nomes e conquistaram o direito de mantê-los oficialmente. A maioria das damas que casavam nestes tempos ou mantinham o nome de donzelas, sem marcas de estado civil (Szabó Mária), ou pegavam o sobrenome do marido delas sem o -né (Kovács Mária), às vezes adicionando o próprio sobrenome delas (Kovács-Szabó Mária). A forma Kovács Péterné está se tornando antiquada.

Mas estas mudanças arruinaram a maneira antiga de chamar as damas e nenhuma nova foi inventada. Hoje em dia, se você quer chamar uma mulher educadamente, sabendo o nome completo dela, você está em apuros.

a) Se o nome dela é Kovács Péterné, esta é uma abordagem inapropriada para ela. Você deve encurtar o nome para Kovácsné, mas isto só é aceitável se a classificação social dela for baixa. Por exemplo, a empregada deve ser chamada de Kovácsné, mas chamar a diretora executiva desta forma é muito rude.

b) Se o nome não contém o sufixo -né, mas ela tem uma profissão ou título apreciado, você deve abrangê-la pelo título dela, sem o nome. Estes incluem: doktornő (doutora), tanárnő (professora), igazgatónő (diretora), művésznő (artista – para atrizes, compositoras, dançarinas etc.) e para classificações mais altas: professzorasszony (professora universitária), miniszterasszony (ministra [membra do gabinete]), képviselő asszony (representante). Quando se remeter a ela, você adiciona estes título honoríficos depois do sobrenome dela.

c) Se o nome dela não conter o sufixo -né e ela não tiver um título, você está sem sorte. Não existe uma forma polida aceitável. Antigamente exista a palavra asszonyom (madame – possessivo da primeira pessoa do singular de asszony, mulher casada), mas ela está desatualizada agora, talvez muitas mulheres não estão casadas. A forma mais nova é hölgyem (possessivo da primeira pessoa do singular de hölgy, dama), mas eu não gosto desta, é muito isolada. Eu posso recomendar para endereçar somente à damas adultos mais novas. Para as mais velhas, o desatualizado asszonyom talvez ainda seja melhor.

Mas ambos asszonyom e hölgyem são utilizadas sem o nome da mulher. Se você souber o nome dela, utilizando quaisquer destes evocam uma sensação de que você esqueceu o nome dela…

 

Matéria original por Láng Attila.