Anotações de um não poliglota — 25 julho 2013

Três razões para amar e odiar aprender o russo

25 julho 2013 (22:45:16)

É claro, todos os idiomas possuem o seu próprio conjunto de desafios. São geralmente estes desafios e os esforços que os tornam interessantes. Se aprender um idioma estrangeiro fosse muito fácil, todos do mundo inteiro seriam multilíngues e não haveria valor especial algum em adquirir habilidades em um novo idioma. Basicamente: no pain, no gain.

Depois de três semanas de aulas intensivas no idioma, a maioria de nós estaríamos em um nível intermediário. Da perspectiva de uma falante de chinês, "Aqui estão as minhas impressões sobre as dificuldades da fase inicial." As dificuldades que também fizeram que ficássemos apaixonados em aprender mais.

1. Palavras muito grandes

No segundo dia de nosso curso, conversamos sobre família. Um colega de classe queria falar sobre os primos dele. O professor nos apresentou a palavra двоюродный брат para primo. A conclusão de nossos colegas de classe: "Muito grande. Talvez a partir de agora eu não tenho mais primos."

    O mesmo aconteceu quando discutimos hobbies e alguém quis dizer que gostava de viajar, cujo verbo em russo é путешествовать.

    Comparado com o idioma chinês, onde um caractere ou uma frase de dois a quatro caracteres podem expressar um conceito ou uma expressão com toda uma anedota histórica por de trás dela, as palavras russas envolvem um bocado de sílabas. As longas palavras mostram que lembrar artografia correta se torna difícil. Cada palavra aparenta ser um trava-língua por si só.  

    O método de ensino do nosso curso não incluía ditados que são muito utilizados em Honk Kong e no sistema de educação da China continental. Isto provavelmente soa nerd, mas quando eu retornar a Pequim, eu planejo pedir ao meu professor online de russo a conduzir estes exercícios para mim, para que eu possa as minhas habilidades de escuta e me acostumar com o soletrar russo sem ter que ficar olhando sempre no dicionário.  

    2. Sempre existe uma exceção

    Existem muitas regras gramaticais no russo. É um idioma altamente lógico. Um dos meus professores da Universidade Estatal de Moscou compara-o com a matemática. Mas também existem numerosas exceções para as regras. Frequentemente as palavras mais utilizadas eram exceções. Neste aspecto não se parece nem um pouco com a matemática. Em nossas aulas, nós temos que nos apaixonar pelas exceções.

    Mais exceções significam mais memorizações. Esta é uma vantagem para estudantes asiáticos estudando russo, pelo meu ponto de vista. Nossas aulas em grupo possuem um aluno da Coréia e outro da China continental. Os outros alunos são de países ou possuem formação ocidentais. Enquanto muitos de nós perguntávamos o porquê muitas vezes que encontrávamos exceções, os nossos colegas de classe ocidentais tendiam a ficar mais frustrados e tinham problemas com as exceções mais frequentemente.

    Um colega de classe achava necessário reclamar em vários idiomas cada vez que nos encontrávamos com exceções às regras gramaticais. (Portanto, haviam várias reclamações.) Este tipo de reação é fútil, obviamente, porque o idioma funciona desta forma e ele não mudará por protestos de algum aluno. 

    Os alunos asiáticos, incluindo eu, reagiram diferentemente. Nosso idioma nativo é tão diferente do russo que não existe chances de misturarmos os tempos verbais ou declinações comparando com idiomas como alemão, francês, espanhol, turco etc. Se eu puder fazer uma generalização: devido ao nosso sistema de educação na China, que é baseado em memorização, é muito mais fácil para nós, estudantes asiáticos, memorizar as exceções.

    3. Conquistar a escrita cursiva

    Eu fiquei praticamente um dia inteiro aprendendo e praticando a escrita cursiva do russo, em casa e por conta própria. Eu estava muito animada, como se estivesse descifrando um código. Um código onde um T se assemelha a um M cursivo e um pequeno 'd' assemelhando-se a um 'g' quando escrito. Claro, minha escrita cursiva de russo não é esteticamente horrível. Minha primeira lição de casa em cursiva me levou umas três horas para ser copiada do rascunho, mesmo sendo apenas trinta frases. Embora eu possa escrever, eu ainda tenho problemas para ler a escrita das outras pessoas.

    Eu não escrevo em cursivo em inglês desde os onze anos. Nós aprendemos e usávamos em sala entre os primários 3 e 5 em Hong Kong. Eu então decidi que uma escrita cursiva bonita não é o meu forte e fiquei presa às letras de forma desde então. Ninguém nunca reclamou. Foi, portanto, uma surpresa e um interesse simultâneo, e um desafio desconfortante, ter que aprender a ler e escrever o cursivo russo. 

    Faz muito tempo que eu não me esforço para aprender um novo idioma. A lição mais importante que eu aprendi enquanto aluna básica de russo foi que não há problema em cometer erros. Todos no começo cometem os mesmos erros. Não há problema em falar como uma criança de três anos ou pior. Nos primeiros dias eu invejei um de nossos colegas de classe que vivia em Moscou enquanto criança e, portanto, possuía um sotaque moscovita sem saber das regras gramaticais. Eu também invejei um outro colega que trabalhava em uma empresa russa, viajava para a Rússia a trabalho regularmente e parecia que havia estudado tudo antes de se juntar a nossa classe para fazer uma revisão intensiva. Agora eu percebo que cada aprendiz possui diferentes altos e baixos. Pode ser na escuta, na leitura, na escrita, na gramática ou com vocabulários. Onde são os meus altos e baixos no idioma russo? Eu não tenho certeza. Talvez a minha maior força seja a que realmente queira aprender.  


Matéria original de Russia Beyond the Headlines.